quarta-feira, 10 de março de 2010

Observações

Observo... é isso que faço a maior parte dos dias nesta fase da minha vida. O observo as pessoas que se deslocam no bulício da cidade... aqueles que todos os dias se sentam as minha volta para almoçar, todos os dias caras diferentes, desvendando-se uma vez por outra alguma mais familiar, e destes não oiço as conversas, limito-me a ler, interpretar e imaginar o que pensam, o que dizem, o que sentem... aqueles que se passeiam no ginásio dos quais estou alienado por força da música... aqueles com que me cruzo nas ruas e no trânsito... todos eles são dignos da minha observação, distante como se fosse uma massa quase inerte que se passeia no universo... sem interacção... sem pertencer... longe das confusões e desatinos de outras alturas... outras lutas... deixo apenas correr em mim o que o mundo me dá... fugindo para onde a imaginação me leva...

Diferente são aqueles que me entram no gabinete, a esses observo-os de outra forma, ouço as suas conversas, as suas histórias, sei o que sentem, acompanho a "estórias" da sua decadência... confidenciam-me alguns segredos... Observo... interajo profissionalmente e esforço-me por dar o melhor de mim... mas por outro lado fico distante... gravo e recordo as conversas... sinto-as nas minhas introspecções e catarse... imagino, projecto... tenho medo...

Hoje tive medo de acabar sozinho, quando entrei num corpo de 94 anos, imaginei o que seria, não que seja assim tão diferente por vezes da maneira como me sinto, mas a imagem de ver desabar tudo o que se constrói, a família, os amigos, o trabalho, a energia, a saúde, a vida... lentamente enquanto se fica como um pilar após um terramoto... sem estrutura... cada vez mais sozinho... à espera da última réplica, arrepia. Por outro lado senti a perfeição do ser humano, a sua capacidade de mudança e aceitação à ultima moratória... da alienação de que todo o dia pode ser o último, mas que pouco importa porque o que se perde é cada vez menos.
...Uma vez, um dos meus observados, alguém que não lhe identifiquei grandes estudos e filosofias além daquela que a vida lhe ia demonstrando (que convenhamos é na maioria das vezes mais precisa longe dos conhecimentos científicos), disse, literalmente - "Ó doutor nós somos uma máquina do caraças, isto quando é para ir vamos perdendo, vamos perdendo, até que nos vamos sem levar saudades disto.É verdade. Quando chegar à minha idade vai ver." - espero que sim caro amigo, mas dou-lhe desde já razão...

Todos os dias se repetem as "estórias", todas diferentes, vividas, contadas sentidas à maneira de cada um... isso dá-me gozo... da-me prazer cada vez que sei que vou conhecer uma nova pessoa... uma nova vida que observo e aprendo... diferente da exaltação do "ego" que geralmente me inspira... ou das musas que crio do nada... ou das coincidências... afinal andei distraído...

...Diferente são os outros que apenas observo... esses não me ensinam... iludem-me e obrigam-me a entrar em mim... querer respostas... perceber o mundo e as suas constantes... o que juntas as pessoas??? o que as move??? o "de onde vim e para onde vou..." e todas as perguntas que se repetem em "loop" a quem não se conforma em saber viver "apenas" com o que alcança... "quem anda com os pés um pouco levantados do chão"... mas essas são respostas que encontrarei, quem sabe, noutro contexto... quando perceber a essência da "perfeição" da máquina humana...

Mas tudo isto dá vontade, de plagiando a citação da última das musas platónicas que, com todas as outras, me tem inspirado nos últimos dias:

"(...)sugar todo o tutano da vida,
para um dia não descobrir que não vivi."
(Henry David Thoreau)

E todos os dias assim acordar...

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