quinta-feira, 30 de abril de 2009

Resposta by pessoa

Se te sinto na saudade, sinto-me ainda mais na ausência de quem seja dono de mim... Não se sente só a alegria de estar a sós...

"Ela canta, pobre ceifeira
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz à o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p'ra cantar que a vida.

Ah! canta, canta sem razão!
O que em mim sente 'stá pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

“Fernando Pessoa”


Este poema de Pessoa no heterónimo de Alberto Caeiro, marca-me deste a primeira vez que o li... faz-me pensar se cada momento de conhecimento ou felicidade será uma pedra que iremos atirar a nós próprios nos momentos de solidão....

Música: http://www.youtube.com/watch?v=myO_gg2he7Y

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Dúvidas

"O que nos leva para a questão se perder será melhor do que simplesmente não se ter? Que se responde com a questão será a nostalgia melhor do que o nada? Será a ausência um sentimento de posse... perante o qual o nada.. será a ausência?! Ou antes felicidade? Assim não ter seria melhor do que perder por se querer ter...

Pensa que só quando tu responderes às tuas perguntas podes ter respostas "válidas" caso contrário as respostas dos outros serão sempre uma fuga para tu próprio não pensares..."


Música : http://www.youtube.com/watch?v=cSMuaBZ-qBE

terça-feira, 14 de abril de 2009

Mistério

A lua enfeitiça a cidade...
Envergonhando-se perante uma cinzenta nuvem que passa de um amor desencontrado...
Passeia-se pela cidade escura... deambulando à luz da candeia... relembrando outrora... outras lutas... o mesmo amor... a saudade...
Da lua que já vai alto... que se desvanece e desaparece... lembrando-me que sem essa luz tudo se apaga... o amor... as lutas... a saudade... o ver na noite enfeitiçada... a incerteza de se partir no escuro...
Quando o pouco ver já é claro... no dia... na luz... dos homens... que ordinariamente vivem... no óbvio... e na obscuridade da luz...
Daí temer a noite... sem feitiço.... Sem a mulher que só vejo à lua... sem a luz que se me apresenta no teu feitiço... num devaneio de mim na obscuridade...

O mistério que se esconde atrás de uma concepção exacerbada da realidade do que tu és... torna-te fantástica à luz da lua... numa turva mistura de Baco e luar... nos teus olhos... sem nome nem rosto sequer definido a meus olhos... és mistério que não desvendarei... diferente da banalidade que serias se te descobrisse...
O mistério e o desconhecido potencia-nos... torna-nos monstros gigantes ou insensatos apaixonados... quererei ser sempre um mistério para que me ultrapasses com teus olhos daquilo que os meus te transmitem... aí serei o que sonhei... sem ter a utópica necessidade de o ser... serei sol ou lua... e não candelabro... serei rei e profeta... e não contador de histórias esquecido na escravatura... da luz... dos dias... sem noite e lua... e mistério...
O mistério desilude a verdade... cria sonhos nos pesadelos... faz-nos correr para muitos dos nadas dos quais fugimos...O mistério faz-me ir atrás de ti... sabendo que nunca te encontrarei como te procuro...

Música: http://www.youtube.com/watch?v=EqWEkam9H4w